As canetas emagrecedoras viraram assunto frequente no consultório, nas redes sociais e nas conversas entre conhecidos. E com razão: os resultados clínicos de medicações como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) são expressivos, documentados em estudos robustos. A decisão de usar ou não essas medicações, porém, cabe exclusivamente ao médico e ao paciente. Não ao nutricionista.
O que me chega no consultório, com frequência crescente, são pacientes que já estão em tratamento médico e buscam suporte nutricional para otimizar os resultados e evitar efeitos indesejados que a medicação não resolve sozinha. Esse suporte faz diferença real, e é sobre ele que vamos falar aqui.
O que acontece com o apetite durante o uso dessas medicações
A semaglutida e a tirzepatida atuam, entre outros mecanismos, mimetizando hormônios intestinais que sinalizam saciedade para o cérebro. O resultado prático é uma redução expressiva do apetite. Muitas pessoas em uso dessas medicações relatam que "esquecem de comer", sentem-se satisfeitas com porções muito menores e perdem completamente o interesse por alimentos que antes eram difíceis de resistir.
Esse efeito é, em certa medida, o objetivo do tratamento. O problema é que reduzir o apetite de forma intensa não é o mesmo que garantir que a pessoa está se alimentando bem. Quando alguém come muito pouco, a qualidade do que é consumido passa a ter importância crítica. E é aqui que começa o trabalho do nutricionista.
O risco de perda de massa muscular: o ponto mais importante
A semaglutida e a tirzepatida reduzem o apetite, mas não distinguem gordura de músculo. O corpo perde o que o balanço energético e a disponibilidade de nutrientes determinam que ele perde. Quando a ingestão calórica cai de forma abrupta e a proteína não é priorizada, uma parte significativa do peso perdido pode vir da massa muscular.
Estudos com semaglutida mostram que a perda de massa magra pode representar uma fração considerável da perda total de peso, especialmente quando não há intervenção alimentar estruturada e estímulo de treino. Isso é um problema concreto, não uma preocupação teórica.
Perder músculo durante o tratamento significa chegar ao final com um metabolismo mais lento, uma composição corporal desfavorável e um risco muito maior de reganho rápido caso a medicação seja suspensa. O suporte nutricional durante o uso da caneta existe, em grande parte, para evitar que isso aconteça.
A importância da proteína durante o tratamento
Quando a pessoa come menos por efeito da medicação, a proteína precisa ser a prioridade de cada refeição, não o último item no prato. Não porque "proteína emagrece", mas porque é o macronutriente que preserva o tecido muscular durante o déficit calórico.
O desafio prático é que muitas pessoas em uso de canetas emagrecedoras sentem náusea ou desconforto com proteínas animais, especialmente carnes vermelhas e ovos, nos primeiros meses de tratamento. Adaptar o plano para usar proteínas mais bem toleradas (frango, peixe, laticínios, proteínas vegetais complementadas) é parte do trabalho nutricional nessa fase.
A quantidade adequada de proteína para preservação muscular durante o déficit varia conforme a composição corporal e o nível de atividade física da pessoa. O plano alimentar definido com o nutricionista leva isso em conta, algo que uma orientação genérica não consegue fazer.
Micronutrientes: o que acontece quando se come muito menos
Quando a ingestão alimentar cai de forma expressiva, o risco de deficiências nutricionais aumenta. Não por má vontade da pessoa, mas pela matemática simples: menos comida significa menos oportunidade de atingir as necessidades diárias de vitaminas e minerais.
Os micronutrientes que merecem atenção especial nesse contexto incluem:
- Ferro e vitamina B12, especialmente em quem reduz consumo de carnes vermelhas.
- Cálcio e vitamina D, importantes para a saúde óssea e muscular ao longo do processo de perda de peso.
- Zinco e magnésio, que participam de centenas de reações metabólicas e costumam ficar deficientes em dietas muito restritivas.
- Vitaminas do complexo B, essenciais para o metabolismo energético.
O acompanhamento nutricional durante o tratamento inclui monitorar esses pontos através dos exames solicitados pelo médico e ajustar o plano alimentar (e eventualmente a suplementação, dentro das atribuições do nutricionista) para cobrir essas necessidades.
O que acontece quando a medicação é suspensa sem mudança de hábitos
Essa é uma das perguntas mais frequentes que recebo: "E se eu parar de usar a caneta, o peso volta?" A resposta honesta é: depende do que aconteceu durante o período de uso.
A semaglutida e a tirzepatida são medicações de uso prolongado. Quando suspensas, os mecanismos de supressão do apetite deixam de atuar. Se nesse período a pessoa não desenvolveu novos hábitos alimentares, não aprendeu a comer de forma que sustente o peso, não preservou massa muscular e não trabalhou os comportamentos que antes levavam ao excesso alimentar, o reganho tende a acontecer.
Isso não é um defeito da medicação. É a consequência de tratar apenas o sintoma (o excesso de apetite) sem tratar a causa (os hábitos alimentares e a composição corporal). A medicação cria uma janela de oportunidade. O suporte nutricional é o que aproveita essa janela para construir algo duradouro.
Quem usa a medicação em conjunto com acompanhamento nutricional estruturado chega ao final do tratamento com hábitos diferentes, composição corporal melhor e, quando a medicação é reduzida ou suspensa (com orientação médica), tem muito mais recursos para manter o resultado.
Para deixar absolutamente claro: se você quer iniciar o uso de Wegovy, Ozempic, Mounjaro ou qualquer outra caneta emagrecedora, o caminho é uma consulta com médico endocrinologista ou clínico geral habilitado para essa prescrição. O nutricionista não prescreve, não indica e não acompanha o fármaco. O que o nutricionista faz, e faz muito bem, é estruturar o suporte alimentar para que o tratamento médico produza o melhor resultado possível e seja sustentável a longo prazo.
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